Sobre o Complexo de Cinderela

Três ou quatro meninos pequenos se sentam em volta de uma mesinha na cozinha de brinquedo. Os meninos começam a requisitar coisas: ‘Me dá uma xícara de café’ ou ‘Me passa a manteiga’ ou ainda: ‘Mais torrada!’, enquanto as meninas põem-se a correr freneticamente entre o fogão e a mesa, cozinhando e servindo. Numa dessas situações, os meninos se mostraram impossíveis de contentar, pedindo um café atrás do outro, levando a única menina da brincadeira a correr desvairadamente pela cozinha e atendê-los.

Finalmente ela ganhou controle da situação, anunciando que não havia mais café. Aparentemente não lhe ocorreu sentar-se a mesa e pedir café a um dos meninos.

A prova comportamental mais concludente no treinamento das meninas é a ajuda excessiva – a tendência dos pais em correrem para auxiliar as filhas quando elas não precisam realmente disso, ou quando elas estão aprendendo a recuperar o equilíbrio após cambalearem (processo fundamental para a confiança e auto-estima).

As meninas são levantadas no colo, seus vestidos são rearranjados e elas recolocadas no chão, lembrando bonecas a que se dá corda para efetuarem os mínimos (e mais estudados) gestos.

Muitas mulheres mantém suas necessidades de dependência muito além do ponto do desenvolvimento em que tais necessidades são normais e sadias. Escondemos dos outros – e, pior que isso, escondemos de nós próprias – o fato de carregarmos a dependência dentro de nós como alguma doença auto-imune.

Grande parte do tempo, a má vontade de muitas mulheres em se erguer sobre seus próprios pés é despercebida porque é esperada. Embora tudo isso mutile as mulheres, muitas não se questionam sobre isso.

O complexo de Cinderela demonstra que as barreiras à realização plena e à autonomia da mulher são erigidas não só pelo homem mas por ela mesma.

Independentemente da idade, dentro dessas mulheres, existe uma criança que vive assombrando todos os níveis da sua vida, criança essa que ambiciona ter um “príncipe perfeito” que a proteja e lhe proporcione uma vida sem esforço e sem perigos. Consequência dessa crença, existe uma insegurança em vários níveis da vida, dando origem a todas as espécies de medos e dúvidas.

Se formos olhar para as famílias de algumas mulheres  (principalmente as de décadas passadas) as mulheres são criadas para depender de um homem e ficarem apavoradas sem ele. Esta crença vai se solidificando, formando raízes, mantendo na mulher adulta um sentimento de incapacidade e inferioridade, que dificulta a consciência de suas mais profundas necessidades e desejos, pois inconscientemente os sabota e assim, permanece dependente.

Ao mesmo tempo em que desejamos nos libertarmos, também desejamos a salvação. Como Cinderela, as mulheres ainda esperam por algo ou alguém externo, que venha transformar suas vidas, ou seja, que venha salvá-las, como se fossem incapazes de salvar a si mesmas. O conflito existe entre o profundo desejo de ser protegida e cuidada, e sua necessidade em ter sua liberdade conquistada. Por exemplo, mulheres que desejam o divórcio, mas não têm coragem de pedi-lo. E muitas ignoram o que sentem e desejam, apesar dos sinais de sofrimento por conflitos internos profundos, mantendo a dependência, ainda que sofram por isso.

Pelo medo de enfrentar o fato de ser capaz de sustentar-se sozinha, não percebe que o comodismo é tudo, menos sinal de dignidade, impedindo assim seu próprio crescimento. É como se estivesse sempre duvidando de si mesma.

Mesmo com toda a mudança que vem ocorrendo ao longo dos anos, muitas mulheres continuam a desperdiçar seus talentos e potenciais, mantendo-se dependentes de alguém. Romper com uma estrutura de anos, reavaliar crenças, nem sempre é fácil para algumas mulheres. Apesar da mulher ter conquistado muitos espaços, algumas ainda se sentem sobrecarregadas, ou mesmo exploradas com tantas responsabilidades em suas costas, mas nada fazem para mudar.

O mais indicado é confrontar com a verdade, ou seja, identificar os sentimentos, encarar o conflito e assim, reconhecer o desejo de ser protegida e cuidada, mas reconhecendo ainda mais sua força e consciência do que é realmente capaz de realizar. Mesmo as mulheres que dizem sentir-se bem cuidando de si mesma, justificando que não precisam de ninguém, podem apenas estar mascarando seus mais profundos sentimentos. Afinal, quem não deseja que alguém cuide de nós? Quem não deseja colo? Ou seja, todas nós somos um pouco Cinderela. Mas nem por isso devemos permitir abrir mão de nossos sonhos, por mais esquecidos que estejam.

A mulher nasceu para estar onde bem entender e para isso deve se desvincular de possíveis raízes de toda a sua criação como uma pequena e linda Cinderela.

 

 

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